Home Noticias & mercado 21 Tintos Italianos que Você Nunca Ouviu Falar | Guia
Noticias & mercado

21 Tintos Italianos que Você Nunca Ouviu Falar | Guia

Share
Share

21 grandes tintos italianos que você nunca ouviu falar

Exploradores do Vinho Italiano — região por região, atrás das DOC e IGT injustamente chamadas de “menores”. Começando pelos tintos.

Os grandes tintos italianos desconhecidos são denominações como Rossese di Dolceacqua (Ligúria), Verduno Pelaverga (Piemonte), Buttafuoco (Lombardia), Malanotte del Piave (Vêneto), Lacrima di Morro d’Alba (Marche) e Cesanese del Piglio (Lácio) — vinhos com terroir, disciplinare e ambição idênticos aos dos nomes famosos, mas sem a máquina comercial que transformou Barolo e Brunello em marcas globais. Neste guia você percorre as 20 regiões da Itália e descobre 21 tintos que quase nenhum brasileiro conhece — com ficha técnica, harmonização e uma garrafa concreta para procurar.


Por que existem tintos italianos “de segunda linha” que não são de segunda linha

Barolo. Chianti Classico. Amarone della Valpolicella. Brunello di Montalcino. Nero d’Avola. Montepulciano d’Abruzzo.

Funciona como com ator famoso: mesmo quem vai ao cinema duas vezes por ano reconhece o rosto. Mesmo quem bebe vinho italiano três vezes por ano reconhece esses nomes na prateleira do supermercado.

O que quase ninguém conta é que, ao lado dos grandes nomes, a Itália tem dezenas de denominações rotuladas como “menores” — não porque o vinho seja pior, mas porque o território que as criou nunca teve o dinheiro, a estrutura de exportação ou a sorte histórica necessários para virar marca mundial. Em qualidade, em terroir, em rigor de produção e em castas, muitas delas encaram de igual para igual as denominações rainhas.

É Davi e Golias, só que engarrafado. Se o Barolo é o rei dos vinhos, o Boca é no mínimo um marquês com pretensão legítima ao trono. Se o Chianti Classico é o tinto italiano por excelência nos Estados Unidos, o Montecucco entrega corpo e emoção pelo mesmo dinheiro — às vezes por menos.

Faça o teste enquanto lê

Para deixar mais divertido, jogue conosco. A cada vinho da lista, some:

  • 2 pontos — você já conhecia e já provou
  • 1 ponto — você conhecia de nome, mas nunca provou
  • 0 pontos — nunca tinha ouvido falar

Sem trapaça. No fim do artigo tem a tabela de classificação do seu nível de Explorador do Vinho Italiano.

1. VALLE D’AOSTA – VALLE D’AOSTA DOC

Território: toda a região, dividida em 7 sub-regiões

Castas: 22 autorizadas, autóctones e internacionais (mín. 85% da casta se ela aparecer no rótulo)

Passagem por madeira: permitida

O Vale de Aosta é sempre o primeiro ou o último a aparecer nos guias, e aqui não vai ser diferente: é daqui que a Itália do vinho começa. É uma região negligenciada até por entusiastas — produção minúscula, poucas vinícolas, distribuição fraca e promoção institucional quase inexistente.

E ainda assim: são os vinhedos mais altos da Europa, agarrados a mais de mil metros de altitude entre as rochas cinzentas dos Alpes, ao redor do vale do rio Dora Baltea. Uma única DOC para toda a região, sem IGT, dividida em 7 sub-regiões, com vinhas em terraços e encostas.

Como em quase toda zona de montanha, os brancos dominam — o clima e o solo de seixos e aluvião dão vinhos salinos e de bebida fácil. Mas, seja pela mudança climática, seja por técnica nova dos vignerons locais, o mesmo terroir hoje entrega tintos autóctones de expressividade notável: Petit Rouge, Fumin, Cornalin, Vien de Nus. E os imigrantes Nebbiolo, Pinot Noir e Gamay também rendem taças únicas por aqui.

São tintos frescos e leves, florais, delicados e ao mesmo tempo minerais, resistentes, longevos. Merecem ser descobertos.

Harmonização: nasceram junto com a cozinha da montanha, então vão bem com sopas encorpadas, caça, fondue, polenta e massas de molho rico com manteiga. Mas experimente fora do óbvio: entradinhas de peixe, comida indiana tandoori, carne com barbecue.

A garrafa: Valle d’Aosta Fumin DOC — Grosjean. O Fumin é o autóctone que os produtores locais souberam valorizar melhor, e a Grosjean é uma das melhores pequenas vinícolas da região. Tinto fresco, de boa intensidade e elegância, com breve passagem por madeira que dá corpo e alguma longevidade.

2. LIGURIA – ROSSESE DI DOLCEACQUA DOC

Território: Dolceacqua e outros 12 municípios da província de Impéria

Castas: Rossese (mín. 95%) + outras (máx. 5%)

Passagem por madeira: permitida

Cor: rubi claro, às vezes muito tênue, evoluindo para granada e tijolo

Aromas típicos: frutas vermelhas, rosa, ervas aromáticas, sub-bosque, resina de pinheiro

Aviso: a Ligúria mereceria mais de uma menção nesta lista. O Ormeasco di Pornassio DOC (expressão deliciosa do Dolcetto), o Vermentino Nero do Levante, o Colli di Luni — todos caberiam aqui. Talvez por ser mais famosa pelos brancos, a região que abraça Gênova continua subexplorada.

O Rossese di Dolceacqua, a denominação mais ocidental da Itália, entra pelo valor indiscutível: uma grande casta apoiada nos terraços típicos, olhando a França do outro lado da fronteira. Produção infinitesimal — cerca de 80 hectares no total — origem misteriosa e características inconfundíveis.

Depois de provar uma vez, você reconhece para sempre: cor tênue, às vezes mais rosé que tinto; aromas delicados e elegantes, com uma nota resinosa absolutamente típica. Boca harmônica, deliciosa. O álcool nunca exagerado o torna acessível até para o paladar mais delicado.

Harmonização: extremamente versátil graças aos taninos gentis — do aperitivo ao prato principal, de peixe a sopas, de risotos a carnes brancas e, com passagem por madeira, também às vermelhas. É o vinho perfeito para levar num jantar na casa de amigos: surpreende e funciona mesmo sem saber o cardápio.

A garrafa: ROJA Rossese di Dolceacqua Superiore DOC — Roberto Rondelli. Rossese no nível máximo. Vinhedo único, leveduras indígenas, produção pequeníssima, 12 meses em barrica. Rondelli ama a casta, e dá para sentir.

3. Piemonte – VERDUNO PELAVERGA DOC

Território: Verduno e outros 2 municípios da província de Cuneo

Castas: Pelaverga Piccolo (mín. 85%) + outras (máx. 15%)

Passagem por madeira: permitida, pouco usada

Cor: rubi límpido e claro

Aromas típicos: morango silvestre, flores vermelhas, sub-bosque, especiarias

A região que abriga alguns dos tintos mais famosos do mundo também tem uma quantidade enorme de gatas borralheiras vivendo na sombra das Langhe. Importadores, sommeliers, turistas e entusiastas pegam a estrada até a saída de Alba para chegar à Meca do Nebbiolo — Barolo e Barbaresco — e pulam todas as denominações que atravessam no caminho: Alto Piemonte, Boca, Monferrato, Monleale, Ovada.

Para não chocar demais, aqui a gente fica dentro das Langhe, mas sem celebrar o Nebbiolo. Falemos do Verduno Pelaverga: menos de 150 mil garrafas por ano, 19 produtores no total. É a menor denominação de todo o Piemonte — pouco mais do que a produção somada de duas vinícolas pequenas.

Aromas delicados e facilmente reconhecíveis, rubi tênue que acaricia o olhar, boca nítida e complexa. É um grande vinho de nicho, em crescimento e adorado por quem tem a sorte de esbarrar nele.

Harmonização: mais um tinto que vai com peixe, inclusive preparos não muito temperados. Ama aperitivos, queijos frescos, embutidos, risotos, carnes e molhos claros.

A garrafa: Verduno Pelaverga DOC — Poderi Roset. Cor tênue e verdadeira, nariz explosivo de flores, ervas, especiarias e pimenta-do-reino. Boca fresca, leve, harmônica, com framboesa e cereja. Nos seus 15 hectares a Poderi Roset também faz Barolo, claro — mas a arma secreta está no Pelaverga.

4. Lombardia – BUTTAFUOCO OLTREPO’ PAVESE DOC

Território: Canneto Pavese e outros 7 municípios da província de Pavia

Castas: Barbera (25–65%), Croatina (25–65%), Uva Rara + Vespolina, chamada Ughetta di Canneto (máx. 45%)

Cor: rubi profundo, reflexos granada e tijolo com o tempo

Passagem por madeira: permitida e muito usada, sobretudo na menção não oficial “Storico”

Aromas típicos: frutas vermelhas, cereja, amora, violeta, compota, especiarias, pimenta, madeira

Com 5 DOCG e 21 DOC, a Lombardia oferece um panorama enológico até fragmentado demais — nem o mais fanático dos wine nerds se gaba de ter provado tudo.

O Oltrepò Pavese foi um dos territórios mais famosos da Itália até o fim do século passado. Aqui a gente não vai investigar por que recuou — vai defender com unhas e dentes o seu imperador tinto, aquele que não teme o dominador internacional (o Pinot Noir, que lhe roubou a cena e ficou com a DOCG): o Buttafuoco.

Umas duas dezenas de produtores mantêm viva uma das denominações mais características da Lombardia, cujas garrafas já esvaziavam nas tavernas locais antes da unificação italiana. O nome vem da expressão dialetal “buta mel feug” — “forte como o fogo” — e descreve tanto a estrutura robusta quanto os tons quentes.

Vinho de tradição secular (historicamente também frisante, versão felizmente extinta) e personalidade forte. Um grupo de produtores criou o Club del Buttafuoco Storico para puxar a qualidade e a imagem do território para cima. O resultado é profundo, estruturado e potente até nas versões mais jovens e simples.

Harmonização: excepcional com a cozinha tradicional do norte da Itália — cassoeula, milanesa, sopa de cebola, polenta com ossobuco, risoto. No Brasil: costela assada lenta, feijoada, carne de panela.

A garrafa: Buttafuoco Storico dell’Oltrepò Pavese “Vigna Sacca del Prete” — Fiamberti. Um cru cultivado com paixão, longo afinamento em barrica, destinado a guarda longuíssima. Enquanto o mercado corre para vinhos leves, o Sacca del Prete briga até o fim: taninos potentes, frutas desidratadas, elegância grandiosa. Produção limitadíssima.

5. Trentino-Alto Adige – TEROLDEGO ROTALIANO DOC

Território: Mezzolombardo e outros 2 municípios da província de Trento

Castas: Teroldego 100%

Passagem por madeira: permitida, bastante usada

Cor: rubi escuro e denso

Aromas típicos: cereja, mirtilo, frutas vermelhas, especiarias, quina, ruibarbo

Trentino e Alto Ádige: duas áreas reunidas numa região importantíssima, onde a geografia e as influências italiana e austro-germânica criaram uma cultura enogastronômica única.

Espremida entre montanhas ao norte de Trento fica a estreita planície Rotaliana, um vale escavado por rios e geleiras, cercado por gigantes de rocha. Hoje dominam pomares de maçã e vinhedos — e entre as uvas tintas o Teroldego manda há séculos, pelo menos desde que foi servido aos participantes do Concílio de Trento, em 1545.

Apesar da área de produção limitadíssima, o Teroldego é bastante plantado — sobretudo por cooperativas locais — e não é raro achar uma garrafa fora da região. É parente distante do Lagrein e da Syrah, e dá um vinho de estrutura nunca excessiva, densamente colorido, pouco tânico, fresco, cheio de frutas do bosque, com especiaria sutil de cacau e quina sobre uma mineralidade sempre agradável. Com madeira, ganha longevidade notável.

Harmonização: aperitivo perfeito. Vai com caça de carne doce como cervo, com canederli, assados, sopas e polenta.

A garrafa: Teroldego Rotaliano DOC — Endrizzi. Doze meses em tonel grande, na leitura de uma das melhores vinícolas privadas da região. A madeira amacia o caráter e amplia o corpo, mas a casta emerge inteira, fresca e frutada, com final especiado que chama a próxima taça. Peça uma fatia de speck junto.

6. Veneto – MALANOTTE DEL PIAVE DOCG

Território: bacia do rio Piave, províncias de Treviso e Veneza

Castas: Raboso Piave (mín. 70%), Raboso Veronese (máx. 30%)

Passagem por madeira: permitida, muito usada

Cor: rubi intenso com reflexos violáceos

Aromas típicos: ginja, amora, cereja, mirtilo, menta, eucalipto

O Vêneto é uma das regiões mais conhecidas do mundo pelos seus vinhos. A milenar Valpolicella — nome que vem do latim para “vale das muitas adegas” — exporta para todos os cantos, e o nome Amarone ecoa em restaurante italiano de qualquer continente.

Mas a região também é pátria de outras uvas. Se Cabernet e Merlot criaram raízes aqui há tempos, autóctones como a Raboso entregam produções excelentes e muito menos conhecidas.

A Raboso dá vinhos austeros, potentes, frutados e tânicos, de bela acidez — e o Malanotte é sua expressão mais interessante. A denominação leva o nome de um vilarejo minúsculo perdido na planície ao norte de Treviso, um museu a céu aberto de origem quatrocentista, e é uma das DOCG mais jovens da Itália: nasceu em 2010.

Intenso, escuro, salino, fresco, encorpado, especiado. Costuma passar bastante tempo em madeira para arredondar as arestas. Conseguimos surpreender você até no Vêneto?

Harmonização: pede cozinha de peso. Embutidos, queijos curados, assados, brasados e churrasco bem marinado.

A garrafa: Piave Malanotte DOCG — Ornella Molon. Maceração em madeira, 24 meses em barrica, 12 em tonel grande, 12 em garrafa. Mais que um afinamento, um romance de formação. Profundo, escuro, fresco, influenciado pela proximidade do Adriático, com um arredondamento guloso vindo do açúcar residual.

7. Friuli Venezia-Giulia – SCHIOPPETTINO DI PREPOTTO (Colli Orientali del Friuli DOC)

Território: município de Prepotto, província de Udine

Castas: Schioppettino di Prepotto

Passagem por madeira: permitida, muito usada

Cor: rubi intenso com reflexos violáceos

Aromas típicos: ginja, frutas do bosque, pimenta-do-reino, cravo-da-índia

O Friuli é terra de grandes brancos — mas também de ótimos tintos. Na fronteira com a Eslovênia (que continua a viticultura do outro lado da linha de forma esplêndida e autônoma, prova de que a natureza não liga muito para política), os Colli Orientali entregam produções fenomenais.

Ao lado de Merlot e Cabernet, aparecem Schioppettino, Refosco e Pignolo — cada um com identidade marcada, sozinhos ou em corte, sempre tânicos, frutados, com notas vegetais e minerais extraordinárias.

O Schioppettino talvez seja a casta mais interessante da zona, e como tantos irmãos foi salva da extinção. Hoje está segura, mas apesar da notoriedade crescente ainda vive confinada às conversas dos apaixonados. Rubi intenso, frutas do bosque e ginja. Austero na juventude, exige paciência para amaciar e mostrar a especiaria natural e a elegância.

Harmonização: versátil, elegante e potente ao mesmo tempo. Pratos regionais, sopas, carnes e assados de caça.

A garrafa: Colli Orientali del Friuli DOC Schioppettino di Prepotto — Vigna Petrussa. Dezoito meses em barrica nova para uma das melhores expressões da casta. Nariz de pimenta-do-reino e framboesa, ganache de chocolate, frutas secas. Longo, sedutor, potente e incrivelmente longevo.

8. Emilia Romagna – LAMBRUSCO SALAMINO SANTA CROCE DOC

Território: província de Módena

Castas: Lambrusco Salamino (mín. 85%), Fortana e Ancellotta (máx. 15%)

Passagem por madeira: permitida, mas raríssima

Cor: rubi tênue, reflexos purpúreos, espuma violácea e evanescente

Aromas típicos: vinoso, aromático, frutas vermelhas frescas, flores vermelhas maceradas

Aqui a gente se dá mal e você provavelmente já está anotando 2 pontos. O Lambrusco é uma casta milenar, citada por Virgílio nas Bucólicas. É um vinho intercategoria — 99% da produção é frisante ou espumante, mas historicamente sempre foi tratado como tinto. São 6 DOC diferentes, todas merecedoras de citação, porque nesse caso o que faz a diferença é a casta e a tradição.

Mesmo tendo perdido a fama que os avós italianos e o mercado americano lembram, segue sendo o vinho tinto mais vendido e bebido da Itália. Vinho amigo, bandeira da convivialidade, de preço sempre sorridente — e com qualidade média em alta progressiva.

O que talvez você não soubesse: existem mais de nove variedades diferentes de Lambrusco. Três principais e as demais de menor circulação. Das três mais conhecidas, o Salamino é a menos difundida: cacho afilado, cor intensa, frescor e fruta esplêndidos.

Harmonização: aperitivo e refeição inteira. Ama Parmigiano Reggiano e presunto de Parma, é alegre como a própria espuma e se bebe em qualquer temperatura — de preferência gelado. Não se leva a sério e topa desafios: de peixe a assado, de castanha assada a biscoito seco. No Brasil, testa muito bem com pizza e com feijoada.

A garrafa: Lambrusco Salamino di Santa Croce DOP — VentiVenti. Vinícola jovem, dinâmica, orgânica. Método clássico de cor impenetrável e espuma finíssima. Frutinhas vermelhas, morango, romã e violeta, com bebida excepcional.

9. Marche – LACRIMA DI MORRO D’ALBA DOC

Território: Morro d’Alba e outros 5 municípios da província de Ancona

Castas: Lacrima (mín. 85%) + outras (0–15%)

Passagem por madeira: permitida

Cor: rubi intenso com reflexos violáceos

Aromas típicos: framboesa, groselha, frutas do bosque, violeta, musgo, especiarias

As Marche. Se você não nasceu na Itália (e às vezes mesmo se nasceu), tente achar essa região no mapa de primeira. Injustamente ignorada, tem paisagens lindas voltadas para o Adriático e cidades com cultura de milênios.

Na produção de vinho não fica atrás — mereceria duas ou três citações nesta lista. Quem aqui conhece a Vernaccia di Serrapetrona DOCG, o Bianchello del Metauro ou a Lacrima di Morro d’Alba? Sim, o município se chama assim mesmo, embora fique a centenas de quilômetros da Alba piemontesa: o nome vem do antigo castelo medieval de Albarello.

“Lacrima” vem da facilidade com que a casca da baga se rompe durante a maturação, provocando a saída de “lágrimas de suco”. Nome romântico, problema real: o produtor quer os cachos inteiros até a prensagem.

Difundida desde a Idade Média, a casta dá um vinho de maciez, elegância e estrutura notáveis. Aromas plenamente frutados, especiaria sutil, teor alcoólico generoso, poucos taninos e acidez equilibrada fazem dele um tinto amigável — ótimo para apresentar vinho italiano a quem está começando. Por outro lado, envelhece rápido: não guarde a garrafa por muito tempo.

Harmonização: brilha sozinho, como taça de aperitivo, mas também com petiscos, embutidos, massas, carnes temperadas, grelhados, churrasco e castanha assada. Encara até chocolate.

A garrafa: “Fiore” Lacrima di Morro d’Alba DOC — Lucchetti. Paolo Lucchetti é o porta-bandeira da casta, herança do pai e do avô Armando, o primeiro a apostar pesado na Lacrima. Vinificação só em aço para preservar a fruta: impenetrável, purpúreo, envolvente de violeta, ameixa, amora e cereja madura.

10. Umbria – TORGIANO ROSSO RISERVA DOCG

Território: município de Torgiano, província de Perúgia

Castas: Sangiovese (mín. 70%) + Colorino, Canaiolo, Cabernet Sauvignon, Merlot (máx. 30%)

Passagem por madeira: mín. 12 meses — mín. 36 meses de afinamento total

Cor: rubi intenso

Aromas típicos: cereja, amora, ameixa, especiarias, madeira

Mais uma denominação “matrioska”: uma DOCG dentro de um território onde já reina uma DOC homônima que vai do branco ao passito. Torgiano é um municipiozinho da Úmbria com tradição vitivinícola enorme.

É um dos raros casos em que a notoriedade de um território vem do trabalho de pouquíssimas vinícolas — para não dizer UMA — cuja competência puxa a qualidade de tudo o que se produz ali, a ponto de ter determinado a própria existência da denominação. Resultado: o Torgiano segue um nicho amado por colecionadores e especialistas, apesar de estar nas mãos de uma casa de fama global.

A variedade de uvas permite vinhos amplos, macios, redondos, de boa estrutura e longevidade. A versão Rosso Riserva DOCG é um grande vinho de guarda, mais próximo — pela riqueza de Sangiovese — dos grandes toscanos vizinhos. Guia Definitivo do Chianti Classico

Harmonização: se a DOC é extraordinariamente versátil, o Riserva DOCG é vinho de ocasião: sopas encorpadas, massas de molho intenso, queijos e embutidos, grelhados, assados e brasados.

A garrafa: “Vigna Monticchio Rubesco Riserva” Torgiano Rosso Riserva DOCG — Lungarotti. Mais que um Torgiano, O Torgiano. A Lungarotti é a rainha incontestada do território. O Vigna Monticchio, cru e topo de gama da casa, é simplesmente um dos grandes tintos da Itália, com longevidade geracional.

11. Toscana – Montecucco Sangiovese DOCG

Território: Castel del Piano e outros 6 municípios da província de Grosseto

Castas: Sangiovese (mín. 85%) + outras (máx. 15%)

Passagem por madeira: permitida; obrigatória para a menção Riserva

Cor: rubi de intensidade média a profunda, tendendo a granada com o tempo

Aromas típicos: frutas vermelhas, flores roxas, alcaçuz

Toscana! Terra de vinhos conhecidíssimos, de fama milenar. E ainda assim: você já tinha ouvido falar deste aqui?

O Montecucco é vinho vulcânico, presente do imponente (e extinto) Monte Amiata, encaixado entre os territórios do Brunello e do Morellino di Scansano. Recolhe o melhor do próprio terroir e virou uma das expressões mais elegantes da Itália central. A DOCG funciona como uma seleção de excelência dentro da DOC mais ampla — e igualmente refinada.

Os vinhos são fortemente influenciados pela alta porcentagem de outras castas autorizadas, que altera radicalmente o perfil aromático sobre a base estrutural do Sangiovese. Isso torna a exploração fascinante, ainda mais considerando que a qualidade média é excelente em praticamente todas as casas. A denominação também abriga branco, rosado e vin santo.

Harmonização: versátil, excelente em qualquer ocasião — do aperitivo ao assado de caça, até a taça de meditação no fim da noite. Bônus: costuma ter uma relação qualidade-preço fantástica

A garrafa: “Poggio Lombrone” Montecucco Sangiovese DOCG Riserva — Castello ColleMassari. O cru de Sangiovese da casa, 30 meses em tonel grande. Encorpado e equilibrado, com notas minerais, de sub-bosque e frutas vermelhas maduras. Guarde: os taninos ganham uma redondeza excepcional com o tempo.

12. Lazio – CESANESE DEL PIGLIO DOCG

Território: Piglio e outros 4 municípios da província de Frosinone

Castas: Cesanese Comune / di Affile (mín. 90%) + outras (0–10%)

Passagem por madeira: permitida

Cor: rubi com reflexos violáceos

Aromas típicos: frutas do bosque, ginja, violeta, flores vermelhas, figo, especiarias

Descendo da Toscana chegamos ao Lácio. Nas encostas dos Montes Ernici, terrenos plantados com videira desde quando Roma ainda era um vilarejo de cabanas continuam entregando surpresas.

O Cesanese del Piglio é uma delas: casta e vinho cuja redescoberta comercial ainda está em curso, mas capazes de encantar até o entusiasta mais esnobe. Maciez, frescor, aromas florais e de fruta vermelha, trama tânica requintada.

É um vinho que mira público jovem, com rótulos atraentes, produtores em geral sem tradição secular às costas e uma relação qualidade-preço muito boa.

Harmonização: sopas, massas, embutidos, aperitivos, carnes vermelhas e brancas e toda a cozinha romana — do cacio e pepe ao cordeiro. Vale testar com a pinsa, a “pizza” romana.

A garrafa: Camponovo Cesanese del Piglio DOCG — Casale della Ioria. A versão jovem e orgânica da linha desta casa. Colheita antecipada e afinamento só em aço para preservar os aromas de fruta fresca, ginja e o frescor típico da casta.

13. Campania – FALERNO DEL MASSICO DOC

Território: Sessa Aurunca e outros 4 municípios da província de Caserta

Castas: Aglianico (mín. 60%), Piedirosso (máx. 40%). Varietal “Primitivo” (mín. 85%), muito usado

Passagem por madeira: permitida, muito usada

Cor: rubi profundo e intenso

Aromas típicos: frutas vermelhas, compota, ameixa, tabaco, especiarias

Descendo pelo Tirreno chegamos ao norte da Campânia, nas colinas que descem do vulcão extinto de Roccamonfina até o mar. Aqui está a fênix renascida das cinzas do tinto mais famoso da Roma antiga: o Falernum, de qualidade tal que os romanos não ousavam diluí-lo com especiarias, mel e água, como era costume na época.

“Nec cellis ideo contende Falernis” — “não tente rivalizar com o Falerno” — escreveu Virgílio nas Geórgicas, há quase dois mil anos. Considerado o “vinho dos Césares”, foi por pelo menos três séculos a bebida mais renomada da Europa, a ponto de ser dividido em três qualidades cuja lógica surpreenderia um agrônomo de hoje: o Cauciner, do alto das colinas; o Faustitian, das encostas; e o Falernian, o melhor, do sopé.

Com a queda do império foi esquecido, e as variações climáticas fizeram o resto. Hoje o nome ressoa mais entre amantes da cultura latina do que entre enófilos — injustamente. Estrutura encorpada, origem milenar e produtores apaixonados fazem dele uma joia para quem gosta de vinho e de história.

Harmonização: massas de molho intenso, embutidos, carnes vermelhas e queijos curados.

A garrafa: Campantuono Falerno del Massico DOC — Papa. Oito hectares no total, numa casa que fez da pesquisa sua coluna vertebral. O Campantuono é o topo de gama, de vinhas centenárias em pé-franco. Primitivo puro, robusto e quente, e ao mesmo tempo elegante.

14. Abruzzo – Montepulciano d’Abruzzo Colline Teramane DOCG

Território: província de Teramo

Castas: Montepulciano (mín. 85%) + outras autorizadas (0–15%)

Passagem por madeira: obrigatória

Cor: rubi profundo com reflexos violáceos intensos

Aromas típicos: violeta e rosa, frutas vermelhas, ameixa, amora, sub-bosque, madeira, especiarias

No Abruzzo encontramos outra uva rainha do mercado. Por décadas o Montepulciano foi o rei das mesas cotidianas de toda a Itália pela maciez, produtividade e facilidade de bebida. Segue sendo uma das castas mais plantadas do país.

Mas aqui interessa a sua expressão adulta, elegante, madura. Como o mesmo pintor na juventude e na maturidade. O Colline Teramane DOCG é um Montepulciano feito para seduzir, para acompanhar pratos grandes, para amadurecer com elegância.

Onde a versão “base” para na simplicidade, as colinas de Teramo — margosas e compactas, apoiadas no maciço do Gran Sasso e voltadas para o Adriático — entregam expressões profundas, embaladas pelos ventos do mar e da montanha.

Harmonização: queijos curados, embutidos, massas de molho intenso, carnes assadas e na brasa. E, claro, os arrosticini — espetinhos de carneiro que são a alma do Abruzzo. Para o leitor brasileiro: é vinho de churrasco, e dos bons.

A garrafa: Zanna Montepulciano d’Abruzzo Colline Teramane DOCG Riserva — Illuminati. Uma das melhores casas do território e um dos vinhedos mais velhos, em sistema de latada, que entrega uvas maduras e robustas. Vinho majestoso, compacto, de fruta cheia e grande complexidade, adoçado apenas pela maturação em tonel grande.

15. MOLISE – Tintilia del Molise DOC

Território: todo o Molise

Castas: Tintilia (mín. 95%) + outras (0–5%)

Passagem por madeira: permitida, muito frequente

Cor: rubi intenso com reflexos violáceos, granada com o envelhecimento

Aromas típicos: fruta vermelha madura, notas balsâmicas e especiadas

A Tintilia, rainha do Molise. Um dos grandes autóctones que custa a sair do próprio território de nascimento, embora merecesse papel mais importante nas cartas de vinho do mundo inteiro.

Provável bisneta de uma casta de origem espanhola, tinha sido quase esquecida, substituída por uvas de mercado mais fácil, até a redescoberta por alguns produtores visionários — entre os quais se destaca Claudio Cipressi.

Estrutura elegante, tanino agradável, intensidade e prazer em todos os sentidos. Vinho para descobrir e amar.

Harmonização: não é vinho de aperitivo. É um lutador, feito para exaltar receitas saborosas, massas e carnes ricas em molhos e aromas.

A garrafa: Macchiarossa Tintilia del Molise DOC — Claudio Cipressi. A Claudio se deve o renascimento da casta: sem ele, teria terminado num registro ampelográfico sem futuro. Uma Tintilia envolvente, tânica, madura — talvez ainda hoje a expressão mais importante da variedade.

16. Basilicata – Matera Doc Moro

Território: toda a província de Matera

Castas: Cabernet Sauvignon (mín. 60%), Primitivo (mín. 20%), Merlot (mín. 10%) + outras (0–10%)

Passagem por madeira: não obrigatória; obrigatórios 12 meses de maturação do vinho

Cor: rubi intenso

Aromas típicos: fruta vermelha madura, notas especiadas

Praticamente desconhecida fora da Itália, um dia chamada Lucânia, a Basilicata é um território áspero e selvagem, hoje iluminado pela sublime Matera, cujo centro histórico é um dos aglomerados urbanos mais antigos do mundo.

Ao norte de Matera fica o antigo vulcão Vulture, terra do elegante Aglianico homônimo. Mas, já que falamos de raridades extremas, citamos aqui o Matera Moro, homenagem à vocação internacional da zona. Não só Primitivo e Aglianico, mas Cabernet e Merlot que, entre argilas, calcários e gravine (cânions) ensolarados, produzem uvas quentes e maduras, harmonizadas com o Primitivo. E embora o disciplinare não exija, os 12 meses obrigatórios quase sempre acontecem em madeira.

Harmonização: assados, queijos de maturação média, grelhados.

A garrafa: Spaccasassi Matera Moro DOC — Tenuta Parco dei Monaci. O mais premiado dos Moro: longa maceração, 18 meses em barrica de carvalho francês, quente e especiado. O nome homenageia a potência do vinho e a da bagolaro, a árvore de frutos doces e raízes “quebra-pedra” que triunfa nas paredes calcárias. Tanino macio e elegante, persistência seca e muito especiada.

17. PUGLIA – Castel del Monte Bombino Nero DOCG

A única exceção da lista: este é um rosado. Entra porque é a primeira DOCG italiana dedicada exclusivamente a rosados, feita com uma das castas mais subestimadas do país — e porque em Apúlia a fronteira entre tinto e rosado sempre foi mais política do que enológica.

  • Território: Minervino e outros 9 municípios das províncias de Bari e Barletta-Andria-Trani
  • Castas: Bombino Nero (mín. 90%) + outras (0–10%)
  • Passagem por madeira: não
  • Cor: rosado tênue
  • Aromas típicos: floral e frutado — rosa, gerânio, romã

Castel del Monte é denominação multiforme e história milenar. Quando, no século XIII, Frederico II — o stupor mundi — mandou construir um castelo de planta octogonal nas colinas das Murge (que nunca viu concluído), não imaginava o sucesso da pequena fortaleza 800 anos depois. Passado de nobre em nobre, bombardeado, abandonado e enfim restaurado, hoje está na moeda de 1 centavo de euro e é parada turística obrigatória.

A Bombino Nero é casta antiga e, neste território quente e seco, rico em rocha calcária, dá um rosado sincero e elegante, esguio e fácil, ao mesmo tempo cheio e sedutor.

Harmonização: aperitivos, cozinha do mar, finger foods, azeitonas.

A garrafa: Suprematism Castel del Monte Bombino Nero DOCG — Mirvita. Um projeto dedicado ao suprematismo, numa vinícola que é maravilha arquitetônica, com vinhos artesanais que querem se destacar das grandes casas que dominam o território. Máxima expressividade da Bombino Nero, aqui com cor mais intensa e profunda que a média. Frescor, salinidade e suculência que inspiram alegria.

18. CALABRIA – CIRO’ DOC

Território: província de Crotone

Castas: Gaglioppo (mín. 80%) + outras (0–20%)

Passagem por madeira: permitida, pouco usada; aparece sobretudo na sub-região “Classico”

Cor: rubi intenso com reflexos violáceos, tendendo a granada com o tempo

Aromas típicos: cereja, ginja, violeta, especiarias, alcaçuz

Atravessamos o Tirreno e atracamos na Calábria, refazendo mais uma vez as rotas gregas e cartaginesas: desembarcamos em Crotone, uma das mais antigas colônias da Magna Grécia, onde Pitágoras fundou sua escola. Um pouco ao norte fica a antiga Kremisa — hoje Cirò Marina — e o vinho homônimo.

Pela história, o Cirò mereceria a DOCG e o status de maravilha nacional: era considerado tão prestigioso que teria sido oferecido como prêmio aos vencedores das antigas Olimpíadas, e diz a tradição que se construíram verdadeiros “enodutos” para levar rapidamente o vinho das alturas em direção à Sila até os portos das colônias.

Dois mil e oitocentos anos depois, encontramos um vinho potente, filho da Gaglioppo, muitas vezes amaciado por castas internacionais. Quente e estruturado, de tanino presente e frescor notável, com fruta vermelha que combina de forma extraordinária com carnes, legumes refogados, embutidos, queijos e massas de molho intenso.

A garrafa: Cirò DOC Rosso — Tenuta Iuzzolini.

19. Sicília — Faro DOC

  • Território: município de Messina
  • Castas: Nerello Mascalese (45–60%), Nocera (5–10%), Nerello Cappuccio (15–30%) + outras autorizadas [VERIFICAR percentuais no disciplinare vigente]
  • Passagem por madeira: permitida, comum
  • Cor: rubi claro, tendendo a granada
  • Aromas típicos: cereja, frutas vermelhas, ervas mediterrâneas, sal, especiarias

A Sicília virou sinônimo de Nero d’Avola e, mais recentemente, de Etna. Mas na ponta nordeste da ilha, nas encostas íngremes que caem sobre o estreito de Messina, sobrevive uma das denominações mais raras da Itália.

O Faro quase morreu. Nos anos 1970 a produção estava reduzida a punhados de garrafas, e foi salva por um pequeno grupo de produtores teimosos. Baseado no Nerello Mascalese — a mesma casta que hoje faz a fama do Etna —, entrega um tinto de cor clara, tanino fino, frescor cortante e uma salinidade que só vem de vinhedos que enxergam o mar de dois lados.

Quem gosta de Etna Rosso e ainda não provou Faro está deixando na mesa o irmão mais raro e, para muitos, mais elegante.

Harmonização: peixe de carne firme grelhado, atum, caponata, carnes brancas, massas com frutos do mar.

A garrafa: Faro DOC — Palari. Salvatore Geraci é o nome que ressuscitou a denominação. Vinho de elegância quase borgonhesa, longevo, sempre entre os grandes tintos italianos nas guias.

20. Sardenha — Carignano del Sulcis DOC

  • Território: área do Sulcis, sudoeste da Sardenha, províncias de Cagliari e Sud Sardegna
  • Castas: Carignano (mín. 85%) + outras (máx. 15%)
  • Passagem por madeira: permitida; obrigatória nas menções Riserva e Superiore
  • Cor: rubi profundo
  • Aromas típicos: fruta preta madura, alcaçuz, mirto, especiarias, notas marinhas

Todo mundo que conhece vinho sardo conhece Cannonau e Vermentino. Poucos conhecem o sudoeste da ilha, onde vinhas velhíssimas de Carignano crescem em solos arenosos — e é aqui que está o detalhe extraordinário: a areia impediu a filoxera de se instalar, o que significa vinhedos pé-franco, sem enxerto, alguns centenários.

Muitas dessas vinhas são conduzidas em alberello (poda em taça baixa), agachadas contra o vento salgado que vem do mar. O resultado é um tinto de fruta escura densa, tanino de grão fino, calor mediterrâneo e um fundo salino inconfundível.

Para o leitor brasileiro, é possivelmente o melhor argumento contra a ideia de que vinho sardo é só Cannonau.

Harmonização: cordeiro, porco assado, queijo pecorino curado, cozidos, churrasco.

A garrafa: Terre Brune Carignano del Sulcis DOC Superiore — Cantina Santadi. A cooperativa que colocou o Carignano sardo no mapa mundial, com consultoria enológica de peso desde os anos 1980. Vinho denso, especiado, de guarda longa.

21. Alto Piemonte — Boca DOC

  • Território: Boca e municípios vizinhos, província de Novara
  • Castas: Nebbiolo (chamado localmente Spanna), mín. 70% + Vespolina e Uva Rara [VERIFICAR percentuais no disciplinare vigente]
  • Passagem por madeira: obrigatória
  • Cor: rubi claro, granada com o tempo
  • Aromas típicos: cereja, rosa murcha, alcatrão, ferro, ervas, especiarias

Prometemos no começo do artigo e cumprimos: se o Barolo é o rei dos vinhos, o Boca é o marquês com pretensão ao trono.

No Alto Piemonte, ao norte de Novara, o Nebbiolo cresce sobre solo vulcânico de pórfiro — coisa que não existe em Barolo nem em Barbaresco. O clima é mais frio, a altitude maior, a influência dos Alpes mais direta. O mesmo Nebbiolo que nas Langhe dá potência e opulência aqui dá tensão, acidez cortante, mineralidade ferrosa e uma leveza aparente que engana: são vinhos de guarda longuíssima.

A região quase desapareceu. No fim do século XIX o Alto Piemonte tinha muito mais hectares plantados que as Langhe; a filoxera, a industrialização têxtil e o êxodo rural quase apagaram tudo. A recuperação, a partir dos anos 1990, é uma das histórias mais bonitas do vinho italiano contemporâneo.

Se o Nebbiolo lhe interessa e o preço do Barolo não colabora, o Boca é a resposta.

Harmonização: risoto, cogumelos, carnes brancas assadas, queijos de média maturação, caça.

A garrafa: Boca DOC — Le Piane. Christoph Künzli é o suíço que comprou vinhas abandonadas e reconstruiu a denominação praticamente sozinho. Longevo, tenso, com uma pureza de fruta que fica na memória.


Qual é o seu nível de Explorador do Vinho Italiano?

Some os pontos e confira:

PontuaçãoSeu nível
0 – 8Turista de supermercado. Você conhece os rótulos da gôndola. Boa notícia: tem 21 descobertas pela frente.
9 – 18Curioso engajado. Já saiu do óbvio, mas ainda anda pelas rotas principais.
19 – 28Explorador. Você lê contrarrótulo, pergunta ao sommelier e arrisca em garrafa desconhecida.
29 – 35Garimpeiro. Você provavelmente já discutiu Schioppettino com alguém que não queria discutir Schioppettino.
36 – 42Perito. Se você chegou aqui honestamente, escreva para a gente. Queremos conversar.

Perguntas frequentes

Esses vinhos são difíceis de encontrar no Brasil?

A maioria sim — são denominações de produção pequena e importação irregular. As melhores chances estão em importadoras especializadas em vinho italiano de nicho e em compras diretas durante viagem à Itália.

Vinho de denominação pouco conhecida é mais barato?

Em geral sim, e essa é a maior vantagem. Um Montecucco Sangiovese ou um Cesanese del Piglio de produtor sério costuma custar uma fração do que se paga por um Brunello ou Barolo de nível equivalente, porque você não está pagando pelo nome da denominação.

Qual desses tintos é o melhor para quem está começando?

Lacrima di Morro d’Alba e Lambrusco Salamino. Ambos têm pouco tanino, fruta generosa e bebida fácil — o oposto do vinho austero que costuma assustar iniciantes.

DOC e DOCG: qual a diferença?

DOCG é o nível superior do sistema italiano, com regras mais rígidas de rendimento, envelhecimento e análise sensorial obrigatória. Mas atenção: DOCG não garante vinho melhor que DOC. Vários dos melhores vinhos desta lista são DOC.

Por que denominações tão boas continuam desconhecidas?

Quase sempre por motivos econômicos e não enológicos: território pequeno, poucos produtores, ausência de um consórcio com verba de promoção, distribuição internacional fraca. Qualidade e fama são coisas diferentes.


O que fazer com esta lista

Não tente provar os 21. Escolha três — de preferência de regiões diferentes — e procure durante os próximos seis meses. É assim que se constrói repertório de verdade: uma denominação por vez, com atenção, e não uma prateleira inteira de nomes famosos.

E se você provar alguma dessas garrafas, conte para a gente nos comentários. A parte boa de escrever sobre vinho pouco conhecido é que quem responde geralmente tem algo interessante a dizer.

Share
Written by
Niccolò Petrilli

Prendo il vino molto seriamente e non rido mai quando bevo. Ho scoperto che poi mi va di traverso.

Leave a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Articles