O Amarone della Valpolicella não é apenas um vinho; é uma lenda líquida que personifica a resiliência e a criatividade da viticultura italiana. Reconhecido mundialmente por sua potência, longevidade e complexidade aromática, este tinto do Vêneto possui uma trajetória fascinante que remonta à Roma Antiga, mas que foi definida por um “erro” afortunado no século XX.
Neste guia completo, exploramos a história detalhada do Amarone, as técnicas de produção que o tornam único e como ele se tornou um dos vinhos mais desejados do planeta.
1. As Raízes Ancestrais: Do Acinatico ao Recioto
Embora o nome “Amarone” seja relativamente jovem, a tradição de produzir vinhos com uvas desidratadas na região de Valpolicella é milenar. Já no século IV d.C., o historiador Cassiodoro descrevia o Acinatico, um vinho denso e doce produzido para a corte do rei ostrogodo Teodorico .
Esse método de passificação evoluiu para o que hoje conhecemos como Recioto della Valpolicella. O Recioto era (e ainda é) o orgulho da região: um vinho de sobremesa onde a fermentação é interrompida precocemente para preservar o açúcar residual das uvas. Por séculos, o objetivo dos produtores era manter a doçura; um vinho seco era considerado um defeito técnico.
2. O Milagre de 1936: A Lenda do Barril Esquecido

A história moderna do Amarone começa oficialmente em 1936, na Cantina Sociale di Valpolicella. O protagonista desta história é Adelino Lucchese, o mestre de adega (capocantina).
Segundo a tradição oral, Lucchese encontrou um barril de Recioto que havia sido esquecido no fundo da adega por vários anos. Ao provar o líquido, esperando encontrar um vinho estragado ou excessivamente doce, ele exclamou:
“Questo non è amaro, è um Amarone!” (Isto não é amargo, é um grande amargo!)
O que havia acontecido foi uma fermentação completa. As leveduras consumiram todo o açúcar, transformando o Recioto doce em um vinho seco, alcoólico e estruturado. O termo “Amarone” foi usado para diferenciá-lo do Recioto (doce) e do “amaro” (amargo comum), sugerindo uma grandeza e elegância superiores .
Linha do Tempo da Evolução do Amarone
| Período | Marco Histórico | Descrição |
| Séc. IV | Acinatico | Produção ancestral de vinhos de uvas passas relatada por Cassiodoro. |
| 1936 | O “Nascimento” | Adelino Lucchese redescobre o barril fermentado e cunha o nome “Amarone”. |
| 1938 | Primeira Garrafa | A primeira garrafa com o rótulo “Amarone” é produzida comercialmente. |
| 1953 | Comercialização | O vinho começa a ser vendido em larga escala no mercado internacional. |
| 1968 | Status DOC | Recebe a Denominação de Origem Controlada. |
| 2010 | Status DOCG | Alcança o nível máximo de qualidade: Denominação de Origem Controlada e Garantida. |
3. A Técnica do Appassimento: O Coração do Amarone
O que distingue o Amarone de quase todos os outros grandes tintos do mundo é o processo de Appassimento. Diferente da maioria dos vinhos, onde as uvas vão direto para a prensa após a colheita, no Amarone as uvas passam por um período de “descanso” forçado.
1.Colheita Manual: Apenas os melhores cachos, com bagos perfeitamente sadios e espaçados, são selecionados.
2.Desidratação: As uvas são colocadas em fruttai (salas de secagem) em esteiras de bambu ou caixas de madeira por 100 a 120 dias.
3.Concentração: Durante este tempo, as uvas perdem entre 30% a 40% de seu peso em água, concentrando açúcares, taninos e precursores aromáticos.
4.Fermentação Lenta: Ocorre no inverno, em temperaturas baixas, durando até 45 dias devido à alta concentração de açúcar.
4. O Blend Sagrado: As Uvas do Amarone
O Amarone é obrigatoriamente um corte (blend) de variedades nativas. A legislação da DOCG é rigorosa quanto às proporções para garantir a tipicidade do terroir de Valpolicella .
| Uva | Proporção | Papel no Vinho |
| Corvina Veronese | 45% a 95% | A espinha dorsal; traz estrutura, cor e aromas de cereja. |
| Corvinone | Até 50% (subst. Corvina) | Contribui com notas de especiarias e taninos sedosos. |
| Rondinella | 5% a 30% | Essencial para a cor e resistência durante o appassimento. |
| Oseleta / Molinara | Até 25% | Variedades complementares para acidez e complexidade. |
5. Perfil Sensorial e Harmonização
Um Amarone clássico apresenta uma cor rubi profunda que tende ao granada com o envelhecimento. No nariz, é uma explosão de frutas negras maduras (cereja, ameixa), chocolate amargo, tabaco, couro e especiarias doces como canela.
•Teor Alcoólico: Geralmente entre 15% e 17%.
•Harmonização: Carnes de caça (veado, javali), risoto de Amarone, queijos envelhecidos (Parmigiano Reggiano, Ubriaco) ou como um “vinho de meditação” ao final da refeição.





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