Poucas histórias no mundo do vinho conseguem unir tradição familiar, pesquisa incansável e uma visão contemporânea tão clara quanto a de Gianluca Mirizzi, o nome por trás da Cantina Mirizzi, parte integrante da histórica Azienda Montecapone em Jesi, no coração das Marche.
Guardião de vinhas que respiram autenticidade e de rótulos que expressam a alma do território, Gianluca transformou a cantina em um laboratório de qualidade, onde o Verdicchio ganha profundidade e identidade como poucos conseguem entregar.
Hoje, temos o privilégio de conversar com ele sobre terroir, inovação, desafios do mercado e claro sobre a filosofia que guia cada garrafa que sai de Montecapone. Uma oportunidade rara de entrar na mente de um produtor que vive o vinho com paixão, rigor e uma dose generosa de humanidade.
Olá Gianluca, antes de mais nada, é um prazer conversar com você. Conte-nos um pouco da história de vocês:
Vamos começar pelas origens: como surgiu o projeto da vinícola Mirizzi e qual foi o papel da história familiar na sua evolução?
Gianluca: A Azienda biologica Mirizzi – VITICOLTURA EROICA – Cervim foi fundada por mim em 2015, depois de já gerir a empresa Montecappone durante 18 anos. Nasci em Roma, de uma família de donos de enoteca, por isso o vinho eu respiro desde muito pequeno.
Qual foi o momento decisivo que fez você entender que o caminho do vinho se tornaria uma verdadeira missão profissional?
Gianluca: Em 1997, quando a minha família decidiu renovar completamente a Montecappone, entendi que precisava me mudar de Roma para Jesi para acompanhar de perto a produção, e é desde essa data que vivo aqui de forma definitiva.
Montecappone é um território com uma identidade muito forte: de que forma esse terroir influenciou o estilo dos vossos vinhos?
Gianluca; O estilo dos vinhos da Montecappone é elegante, cítrico e de longa guarda. Esse estilo de produzir vinhos brancos, e em particular Verdicchio, fui aprimorando ao longo do tempo também graças aos ensinamentos de um grande consultor, Lorenzo Landi, com quem colaboro há quase 25 anos.
A linha Mirizzi tem uma personalidade bem marcada. Qual foi a ideia inicial por trás dessa identidade e como ela evoluiu ao longo do tempo?
Gianluca: A Mirizzi não é uma linha de produtos, mas uma verdadeira empresa (Azienda biologica Mirizzi – VITICOLTURA EROICA – Cervim). Ela nasceu exatamente porque, depois de tantos anos produzindo com a Montecappone vinhos perfumados, elegantes, delicados e cítricos, quis me aventurar com Verdicchio de estilo mais tradicional. Queria fazer vinhos mais amplos, acolhedores, redondos e me desafiar com a sobrematuração (ERGO). Com o passar dos anos, acrescentei também a produção de espumantes método clássico e de Grenache, tanto na versão jovem quanto na reserva.
Na fase de crescimento da vinícola, quais foram os desafios mais importantes e como vocês conseguiram superá-los?
Gianluca: Os desafios mais importantes estão relacionados às vendas. Fazer o mercado entender o trabalho do verdadeiro produtor, fazer entender que o vinho de qualidade tem valor.
Como você definiria a filosofia produtiva de vocês, especialmente em relação à sustentabilidade, inovação e respeito pelo território?
Gianluca: A filosofia produtiva é “redutiva” na Montecappone e “tradicional” na Mirizzi. O respeito pelo território, entendido como tipicidade, existe nas duas empresas. Em ambos os casos utilizamos técnicas agronômicas e enológicas que não descaracterizam os vinhos, mas que acompanham as uvas e os vinhos até um resultado final ligeiramente diferente entre as duas empresas, e que, em ambos os casos, é de grande interesse.
Em um mercado de vinhos cada vez mais competitivo, qual é a estratégia de vocês para valorizar as variedades autóctones da Marche?
Gianluca: Como estratégia comercial, na Itália contamos com 3 distribuidores nacionais que vendem nossos vinhos no canal HORECA. Para os mercados estrangeiros a situação é mais complexa e variada. Estamos iniciando uma colaboração com um export manager de longa experiência na área.
Do ponto de vista comercial, quais mudanças você observou nos últimos anos e como a vinícola Mirizzi está se adaptando?
Gianluca: Nos últimos anos houve uma atenção moderada (mais moda do que qualquer outra coisa) pelos vinhos “menos elaborados”; essa atenção depois se extremou na leve e passageira afirmação dos chamados vinhos naturais. Felizmente, essa pequena desviação da “normalidade” a Mirizzi enfrentou com a conversão à agricultura biológica.
Essa fase temporária também já passou e os mercados agora têm um problema muito maior e estrutural. O consumo de vinho caiu, os jovens continuam distantes das taças de vinho e a Europa, principal mercado para o vinho, está saturada. Além disso, os europeus que compravam vinho, especialmente os países mais ricos, com Itália e Alemanha na frente, empobreceram nos últimos 10 anos. Como nos adaptamos a esse desastre de consumo e renda?
Qual é o papel da comunicação hoje para uma vinícola como a de vocês e quais ferramentas você considera mais eficazes para dialogar com o consumidor moderno?
Gianluca: A comunicação dos valores da minha família e, portanto, das características dos meus vinhos acontece por meio do boca a boca (o modo mais eficaz), através dos agentes comerciais e, de forma menos concreta e mensurável, através das redes sociais.
Olhando para o futuro, quais são os projetos, as ambições e a visão de longo prazo para a marca Mirizzi e para Montecappone?
Gianluca: O futuro das minhas duas empresas está ligado ao desenvolvimento dos mercados. Produzimos bem, mas temos absoluta necessidade de abrir mercados novos, como a América do Sul e, em particular, o Brasil, que é o país mais rico e com o maior número de italianos no exterior em todo o mundo.





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